Fases do autoconhecimento: a porta estreita da dor, a porta larga do sofrimento.

Há muitas formas de se conhecer, se interiorizar e ouvir a própria voz. No entanto, devido a tanta inconsciência, a maneira que mais funciona em meio ao constante burburinho tecnológico, a princípio, é através da dor. Ela desenterra a nossa capacidade de questionar as coisas e nos abarrota de porquês. O problema é que quando começamos a questionar demais e tentamos alcançar respostas que ainda não estamos preparados para encarar, abre-se um catalisador de sofrimento. Há um meio termo entre questões e respostas, há um tempo para maturação, somos seres processuais, estamos em desenvolvimento constante.

O sofrimento, como extensão da dor que se avoluma pela existência, nos coloca em lugares sombrios, onde nos sentimos os rejeitados do mundo, os renegados de Deus. Estamos mais atentos ao sofrimento do que a dor, por isso pensamos ser vítimas eternas. Com a palpitante comunicação virtual, deturpada pela overdose de dizeres frívolos, o sofrimento e o excesso de emoção dão audiência porque nos faz sentir sob holofotes, atraindo olhares, atenção e curtidas (falsa compaixão). Elementos que geralmente negamos nos ofertar, desenvolvendo a necessidade de aprovação externa.

A dor é um chamado, ela existe para nos sacudir, significa que há necessidade de limpeza e mudanças. Ela (a dor), é o ponto de partida para o despertar do sono de olhos abertos e da apatia que nos faz virar as costas para nossa própria existência, nossas vontades, valores e realizações. São nesses momentos dolorosos que vamos percebendo o quanto somos, quiçá, os únicos salvadores de nós mesmos. O sofrimento não nos deixa virar a página, a dor sim.

Aquilo que negamos insistentemente, julgamos ser difícil demais compreender. Porém, tudo, ou quase tudo o que está dentro de nós é capaz de ser constatado, refletido e apreciado, alcançando sim a nossa autopercepção e avaliação. Somente o envolvimento efetivo conosco nos dirá o que é ser quem a gente é. Se alguém interroga: “quem é você?” ficamos confusos e começamos a buscar referências, alguma direção para nos situar no mapa que só a gente pode conhecer precisamente. Ninguém tem o poder de nos dizer quem somos e quais os nossos limites.

Para chegar lá, silenciar é um caminho fértil, principalmente o silêncio do nosso diálogo interno, que muitas vezes é cruel e extremamente negativo. Quando não conseguimos calar essas persistentes vozes, podemos simplesmente não nos envolver ou acreditar nelas, só assim conseguiremos ouvir nossa essência com clareza, retirando o poder dos pensamentos, ficando atentos ao conteúdo deles. Assim, efetuamos nosso detox mental, selecionando o que nutre e ignorando o que aniquila. No fundo, sabemos perfeitamente o que nos faz bem e o que não faz. Ainda que se instalem algumas dúvidas, absorvidas aí fora, a intimidade, como espelho, sempre revela nosso ser divino. Escute-o.

 

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